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Thaissa Vargas · Amamentação & Pós-Parto

Amamentação

Amamentação do bebê prematuro: o que esperar e como manter o leite

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Seu bebê nasceu antes da hora? Entenda como funciona a amamentação do prematuro: colostro, ordenha desde as primeiras horas, como guardar e levar o leite à UTI, método canguru e a passagem da sonda para o peito.

Mão de um adulto segurando com delicadeza a mãozinha de um bebê pequeno, pele com pele, sobre uma manta bege em luz suave

Seu bebê nasceu antes da hora, e o plano de amamentar logo depois do parto mudou de repente. No lugar do colo, uma incubadora. No lugar da mamada, uma sonda fininha. É natural sentir medo e tristeza. Respire: você tem um papel enorme nessa história.

A amamentação do prematuro é possível, mas costuma acontecer em etapas. Primeiro, você tira o leite para manter a produção e alimentar o bebê pela sonda; depois, com o contato pele a pele e o amadurecimento dele, vem a transição aos poucos para o peito. Neste guia você vai entender cada fase e como cuidar do seu leite enquanto o bebê está na UTI neonatal.

As orientações seguem o Ministério da Saúde, a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH/Fiocruz), a SBP e a OMS, e não substituem o que a equipe do seu bebê combinar com você.

Por que o leite materno é tão importante para o bebê prematuro

Prematuro é o bebê que nasce antes de completar 37 semanas de gestação. Segundo a OMS, cerca de 13,4 milhões de bebês nasceram prematuros no mundo em 2020, mais de 1 em cada 10 nascimentos. Você não está sozinha.

O manual do Método Canguru, do Ministério da Saúde, registra que hoje existe consenso: o leite da própria mãe é a melhor opção para o bebê prematuro. A norma da rBLH para unidades neonatais acrescenta que o leite cru da mãe, oferecido ao próprio filho, leva fatores de proteção intactos, como as imunoglobulinas (os anticorpos) e a lactoferrina.

As recomendações da OMS de 2022 para o prematuro seguem a mesma linha:

  • O bebê que já consegue mamar deve ir ao peito o quanto antes.
  • O bebê que ainda não consegue mamar deve receber o leite ordenhado da própria mãe assim que houver leite.
  • Se o leite da mãe não estiver disponível, a opção seguinte é o leite humano doado, vindo de um banco de leite.

Isso não quer dizer que tudo depende só de você. O manual do Ministério da Saúde explica que, no começo, muitas mães têm dificuldade para manter a produção, e que pode ser preciso complementar com leite pasteurizado do banco de leite. Cada gota que você tira tem valor, e a equipe ajusta o restante.

O colostro e a colostroterapia

O colostro é o primeiro leite. O manual do Método Canguru orienta que, mesmo quando o bebê ainda não começou a se alimentar, a mãe tire e guarde o colostro para o início da dieta.

Algumas UTIs neonatais fazem a colostroterapia: a equipe aplica um pouco de colostro da mãe na mucosa da boca do bebê, dos dois lados, antes mesmo de ele se alimentar pela boca.

Uma revisão de estudos de 2022 encontrou menos casos de enterocolite necrosante (uma inflamação grave do intestino) e de infecções nos bebês que receberam colostro assim. Os autores, porém, pedem estudos maiores para confirmar, e a revisão Cochrane de 2018 considerou o efeito ainda incerto.

Quem decide quantidade e horário é a equipe. O seu papel é levar o colostro, mesmo que sejam poucas gotas.

Ordenha desde as primeiras horas: como manter a produção de leite

A prolactina, o hormônio que produz o leite, é liberada pelos estímulos da sucção, explica o manual do Método Canguru. Enquanto o bebê não suga o peito, é a ordenha que estimula e esvazia as mamas, e a rBLH lembra que esvaziar bem as mamas ajuda a manter a amamentação mesmo com mãe e bebê separados.

Quando começar e com que frequência

O manual do Método Canguru orienta que a ordenha comece assim que a mãe estiver recuperada do parto, de preferência nas primeiras 6 horas depois do nascimento, e que seja estimulada a cada três horas, mesmo que o bebê ainda não esteja recebendo leite. Nesse caso, o colostro fica guardado para o início da dieta.

Se você teve uma cesárea ou uma complicação e não conseguiu começar tão cedo, não se culpe: comece assim que puder. O manual prevê que a equipe ou o banco de leite acompanhem a ordenha todos os dias: leve a eles as suas dúvidas.

O que as normas indicam para ajudar:

  • Tire o leite perto do bebê, quando a unidade permitir. A rBLH cita que ordenhar à beira do leito, vendo o bebê ou em contato com ele, aumenta o volume de leite.
  • Faça massagem antes de começar. A rBLH orienta nunca iniciar a ordenha sem a massagem, porque ela ajuda a esvaziar a mama por igual e melhora o reflexo de saída do leite.
  • Não use sabão, cremes ou pomadas nas mamas antes da ordenha. Para limpar, basta água corrente, segundo a rBLH.
  • Cuide de você: a Caderneta da Gestante recomenda alimentação adequada, boa hidratação e descanso sempre que possível.

Ordenha manual ou com bomba?

As duas formas são aceitas. A norma da rBLH orienta que a equipe apresente os métodos disponíveis no serviço, deixe a mãe experimentar e que a escolha seja da mãe, sem valorizar um método mais que o outro. O manual do Ministério da Saúde diz que o ideal é a retirada manual.

O passo a passo da ordenha manual, segundo o Ministério da Saúde e a rBLH:

  1. Prenda o cabelo, lave bem as mãos e os antebraços e, no hospital, use a touca e a máscara que a equipe oferecer.
  2. Massageie a mama com a ponta dos dedos, em movimentos circulares, começando pela aréola (a parte mais escura) e abrangendo toda a mama.
  3. Coloque o polegar e o indicador onde começa a aréola, um de cada lado, firme os dedos e empurre para trás, em direção ao corpo.
  4. Aperte com delicadeza um dedo contra o outro, soltando e repetindo, até o leite começar a sair. Nunca aperte o mamilo.
  5. Despreze os primeiros jatos ou gotas e comece a coleta no frasco.
  6. Mude a posição dos dedos ao redor da aréola, para retirar o leite de todos os lados da mama.

A ordenha não deve doer. Pela norma da rBLH, se doer, a técnica precisa ser corrigida: peça para a equipe ou o banco de leite olhar como você faz.

Como guardar e levar o leite para a UTI neonatal

O prematuro é muito vulnerável, por isso a primeira regra é seguir o protocolo do hospital. O manual do Método Canguru orienta que a retirada do leite para estoque seja feita no banco de leite do hospital; a ordenha manual também pode ser feita ao lado da incubadora, com o leite oferecido em seguida.

Se a equipe orientar que você tire leite em casa, as normas da rBLH trazem os cuidados básicos:

  • Frasco: de vidro, com tampa de plástico, sem rótulo. Lave, ferva frasco e tampa por 15 minutos e deixe secar de boca para baixo sobre um pano limpo, sem enxugar.
  • Identificação: seu nome, a data e a hora da coleta.
  • Geladeira: até 12 horas, a até 5 °C. Evite a porta, onde a temperatura varia mais, e não deixe o frasco encostar em outros alimentos.
  • Congelador ou freezer: até 15 dias, a -4 °C ou menos.
  • Transporte: sem deixar o leite exposto ao ambiente, em caixa térmica com gelo reciclável, que mantém a temperatura mais baixa que o gelo comum.

Se o hospital tiver regras próprias, vale a regra do hospital.

Método Canguru e pele com pele: o colo que também ajuda o leite

O Método Canguru é um modelo de cuidado humanizado do Ministério da Saúde para o bebê prematuro ou de baixo peso e a família dele. Inclui acolher os pais, garantir o acesso livre deles à unidade neonatal, sem restrição de horário, e apoiar a amamentação.

A posição canguru é o bebê em contato pele a pele, na vertical, junto ao peito da mãe, do pai ou de outro familiar, sempre com orientação da equipe. O contato começa com o toque e evolui aos poucos, pelo tempo que for bom para os dois. A OMS recomenda o cuidado canguru como rotina para todos os prematuros e bebês de baixo peso, começando o mais cedo possível depois do nascimento, de 8 a 24 horas por dia.

O manual aponta o pele a pele como estratégia de promoção da amamentação, em especial para o prematuro: com o contato e os cuidados, a segurança da mãe e o vínculo com o bebê se fortalecem. Quando a mãe não puder, a OMS prevê que o pai, a parceria ou outros familiares façam o canguru.

Da sonda para o peito: como é a transição

No começo, o prematuro não consegue se alimentar pela sucção e recebe o leite por sonda (a gavagem). Segundo o manual do Ministério da Saúde, depois da melhora clínica e quando o bebê passa a coordenar sucção, deglutição e respiração, começa a transição para o peito.

Sucção não nutritiva

Na sucção não nutritiva, o bebê suga sem receber leite. O manual descreve que ela pode ser feita:

  • no dedo enluvado, com supervisão de um profissional habilitado;
  • no dedo mínimo da mãe, que, junto com o colo dela, pode satisfazer essa necessidade de sugar;
  • na técnica da mama vazia: a mãe esvazia a mama com a ordenha e o bebê vai ao peito, ganhando experiência de sucção antes de tirar a sonda; o leite ordenhado vai pela sonda em seguida.

Quando o bebê está pronto para mamar

Não existe um peso ou uma idade fixa. O manual do Método Canguru diz que a decisão de permitir a sucção não pode se basear apenas no peso e na idade gestacional. Assim que o bebê atinge a dieta completa pela sonda, qualquer que seja a idade gestacional, um profissional habilitado pode avaliá-lo para definir o momento seguro de começar a transição.

Um instrumento brasileiro de avaliação da prontidão do prematuro para mamar, validado em estudo na Revista Latino-Americana de Enfermagem, observa pontos como:

  • a idade corrigida;
  • o estado de alerta, a postura e o tônus do corpo;
  • os reflexos orais, como o de busca (virar a boca para procurar a mama);
  • na sucção não nutritiva: movimento da língua e da mandíbula, força, ritmo e sinais de estresse.

Na transição, o manual descreve a translactação (uma sonda fininha junto ao mamilo, ligada a uma seringa com leite, para o bebê receber leite enquanto suga o peito) e o copinho para complementar. As primeiras mamadas devem ser acompanhadas por profissionais experientes, atentos a sinais de estresse, como mudança de cor da pele e pausas na respiração.

Idade corrigida: o relógio do prematuro

A idade corrigida é a idade do bebê ajustada pelo quanto ele nasceu antes das 40 semanas. A SBP dá um exemplo: um bebê que nasceu com 32 semanas em 1º de agosto terá, em 1º de novembro, 3 meses de idade cronológica e 1 mês de idade corrigida, porque nasceu 8 semanas antes do previsto.

A SBP orienta usar a idade corrigida nos primeiros dois anos de vida e lembra que o prematuro pede o peito em intervalos mais curtos.

Desafios comuns na amamentação do prematuro

O bebê dorme no peito

No início, os bebês pré-termo dormem mais, explica o manual do Método Canguru. Antes da mamada, ele orienta despertar o bebê com pequenos estímulos: tocar suavemente o rosto ou a sola dos pés e fazer toques leves ao redor da boca, para estimular o reflexo de busca.

Ele mama pouco tempo ou com pouca força

O manual descreve que, em muitos prematuros, os reflexos de busca e de sucção começam fracos, e alguns precisam de dias de prática para se organizar. O fonoaudiólogo, quando faz parte da equipe, ajuda nisso.

A rBLH cita a ordenha para os prematuros que se cansam antes de ficar satisfeitos, para que recebam o leite ordenhado como complemento. Depois da mamada, o manual recomenda não deitar o bebê na horizontal, nem para trocar a fralda, nos 15 a 30 minutos seguintes.

"Meu leite está diminuindo"

O manual do Ministério da Saúde explica que a ocitocina, o hormônio da saída do leite, depende da sucção e também do estado emocional da mãe: quando ela não se sente acolhida, a saída do leite pode ser prejudicada. Antes de concluir que o leite "secou", fale com o banco de leite do hospital. Ordenhar perto do bebê, fazer canguru e manter a frequência das ordenhas são as medidas indicadas.

A sua saúde emocional na UTI neonatal

Ter um filho internado é muito duro. O manual do Método Canguru descreve o nascimento prematuro como um momento de crise para a família e lembra que muitos pais sentem culpa, com medo de terem causado o parto antes da hora. Essa culpa aumenta a ansiedade, e você não precisa carregá-la sozinha.

Algumas coisas que podem ajudar:

  • Peça para falar com o psicólogo ou o assistente social: eles fazem parte da equipe do Método Canguru.
  • Aceite ajuda da parceria e da família, como recomenda a Caderneta da Gestante.
  • Descanse sempre que possível. A ordenha importa, e você também.

A Caderneta da Gestante diferencia o baby blues, tristeza leve e choro fácil nos primeiros dias, que costuma melhorar sozinho, da depressão pós-parto, com tristeza intensa e persistente, culpa excessiva, ansiedade importante ou dificuldade para cuidar de si ou do bebê.

Se a tristeza não melhora, a ansiedade é forte ou a culpa é intensa, fale com a equipe da UTI ou procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Caps (Centro de Atenção Psicossocial). Para conversar agora, o CVV atende pelo 188, sem custo, 24 horas. Se tiver pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê, ligue para o SAMU (192) ou vá a um pronto-socorro.

Quando procurar ajuda depois da alta

A alta abre a terceira etapa do Método Canguru, com acompanhamento no ambulatório. Segundo o manual, procure o serviço que acompanha o bebê ou um pronto-socorro se notar:

  • mudança na cor da pele: arroxeada, manchada como mármore, muito pálida ou amarelada;
  • pausas na respiração;
  • dificuldade ou desconforto para respirar;
  • bebê muito parado, mole ou pouco ativo;
  • irritação intensa;
  • regurgitação frequente ou vômitos;
  • recusa do peito ou diminuição das mamadas;
  • perda de peso ou ganho abaixo do esperado nas consultas.

Se o bebê ficar roxo, parar de respirar ou não responder, ligue para o SAMU (192) imediatamente.

Para você, mãe, a Caderneta da Gestante orienta procurar um serviço de saúde se surgir dor intensa, vermelhidão, febre ou áreas endurecidas e doloridas na mama, ou dor intensa ou persistente ao amamentar.

Perguntas frequentes sobre a amamentação do prematuro

Bebê prematuro consegue mamar no peito?

Muitos conseguem, no tempo deles. O manual do Ministério da Saúde reconhece que muitas mães de prematuros amamentam sem dificuldades e outras precisam de mais apoio. No começo, o leite vai por sonda, porque o bebê ainda não coordena sucção, deglutição e respiração. Com o amadurecimento, a equipe faz a transição aos poucos.

Com quantas semanas o prematuro começa a mamar?

Não existe uma semana fixa. O manual do Método Canguru diz que a decisão não pode se basear só no peso e na idade gestacional: assim que o bebê atinge a dieta completa pela sonda, um profissional habilitado avalia o momento seguro. O mesmo manual descreve que o reflexo de busca fica rápido, completo e duradouro por volta de 34 semanas.

Quantas vezes por dia devo tirar leite se o bebê está na UTI?

O manual do Método Canguru orienta estimular a ordenha a cada três horas, começando de preferência nas primeiras 6 horas depois do parto, mesmo que o bebê ainda não esteja recebendo leite. Se for difícil manter esse ritmo, converse com o banco de leite do hospital para montar uma rotina possível.

Quanto tempo o leite materno dura na geladeira para levar à UTI?

Pela norma da rBLH, o leite cru dura até 12 horas na geladeira, a até 5 °C e longe da porta, e até 15 dias no congelador ou freezer. O hospital pode ter regras próprias para o leite do prematuro, então siga a orientação da unidade e leve o leite em caixa térmica com gelo reciclável.

Meu leite é pouco. Vale a pena continuar tirando?

Vale. Mesmo poucas gotas de colostro são guardadas para o início da dieta. Ordenhas frequentes, ordenha perto do bebê e pele a pele são as medidas indicadas. Se o volume não sobe, peça ajuda ao banco de leite. E, se for preciso complementar, isso não diminui o valor do que você oferece.

Você não está sozinha nesse caminho

A amamentação do prematuro é feita de pequenos passos: uma gota de colostro, um canguru, uma primeira lambidinha no peito. Nem todos os dias vão parecer avanço, e tudo bem. Apoie-se na equipe da UTI neonatal, no pediatra e no banco de leite humano do hospital: eles conhecem o seu bebê e estão ali para ajudar você também.

Os outros conteúdos sobre o tema ficam reunidos na categoria Amamentação do blog.

Fontes

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